Será que quadrinho é coisa de homem? Será que as mulheres só leem
quadrinhos para mulheres? Confira agora a opinião de quatro quadrinistas com
estilos diferentes e trabalhos que vêm se destacando no universo das HQs.
Por Laíssa Barros
Lu Caffagi
“Tem um bocado de homens que veem meu quadrinho, acham o desenho
delicado e compram dizendo ‘Ah, é pra dar de presente pra minha namorada’, mas
acabam gostando e comprando um pra ele também.”
Lu Caffagi aprendeu a ler com
Mauricio de Sousa e começou a desenhar observando o irmão Vitor Caffagi, que
também é desenhista. Hoje, junto com ele, está produzindo a graphic novel
da Turma da Mônica, além de já ter lançado Mix Tape(quatro
minigibis) e as tirinhas no blog Los Pantozelos.
“Encontrei na Turma da Mônica uma personagem feminina determinada,
forte e cheia de personalidade, a partir da qual desenvolvi meu ponto de vista
a respeito da presença feminina no mundo. Desenhar a graphic foi a realização
de um sonho, é como brincar com velhos amigos de infância.”
Lu acredita que envolver o público feminino na leitura de quadrinhos é
um movimento natural e que forçar esse tipo de coisa empobrece a produção, e
nenhum leitor acaba se envolvendo de verdade.
Ela afirma que é muito importante que os quadrinhos discutam os assuntos
femininos e feministas, assim como outras esferas culturais da nossa sociedade.
“Até hoje, só publiquei histórias a respeito de mulheres. Não é exatamente uma
decisão política, é uma escolha natural mesmo. E eu, particularmente, acho as
mulheres mais interessantes, e elas ficam mais bonitas no meu traço”.
Cynthia B
“Eu não acho que tem que haver algum direcionamento ao público feminino,
isso é dizer que mulheres e homens não podem gostar das mesmas coisas, ou
mulheres não têm capacidade de apreciar um trabalho que não seja sobre
relacionamentos ou depilação? Acho que à medida que existem mais quadrinhos que
não são voltados para garotinhos, mais mulheres e mais homens inteligentes vão
se interessando com o meio.”
Formada em medicina, Cynthia mudou de planos e hoje em dia é assistente
do quadrinista Allan Sieber na Toscographics. Além disso, tem uma revista com
colaboração de vários desenhistas, a Golden Shower, e a HQ
Bananas em parceria com a Chiquinha.
“Muitas pessoas se chocam ou comentam por eu ter feito uma revista mais
voltada para um tema sexual como a Golden Shower, mas eu não sou
nem de longe a primeira mulher a fazer um quadrinho que não é fofo nem
engraçadinho. Aliás, alguém ainda espera que uma mulher não saia de casa, não
veja TV, nem jornal, né? Este ano sai a Golden Nº 3, mas desta vez
vou fazer com menos cartunistas, uma coisa com uma mão minha mais pesada, em
vez de ser só uma coletânea de gente que curto.”
Cynthia comenta que as tentativas que fez de escrever sobre temas mais
feministas soaram muito didáticas e que, antes de tentar algum trabalho mais
explicitamente feminista, ela quer ser honesta e mostrar o melhor do que sente
e pensa; como os assuntos femininos fazem parte dela, isso vai transparecer
naturalmente em seus trabalhos.
Cristina Eiko
“Tem muitas obras que podem ser apreciadas por qualquer gênero, basta as
pessoas descobrirem. Direcionar como ‘masculino’ ou ‘feminino’ acaba limitando
o acesso. Existe público misto para livros, séries de TV, filmes e até novela
hoje em dia, e quadrinhos não deve ser diferente. Basta ter qualidade, e o
público virá.”
Formada em design, Cristina já trabalhou com animação e ilustração e
cresceu lendo gibis de super-heróis. “Não pensava, na época, se os super-heróis
eram para mulheres ou não, eu lia pelas aventuras, pelos dilemas que os heróis
e heroínas passavam, e continuei lendo quase até o fim da adolescência”.
Hoje em dia, ela faz os Quadrinhos A2, junto com seu marido,
Paulo Crubim, que são histórias autobiográficas do cotidiano dos dois e do
cachorro deles, o Pino. “Pensamos em lançar a 3ª temporada do Quadrinhos
A2 no FIQ 2013, se der tudo certo. Temos um outro projeto em conjunto
em desenvolvimento, e gostaria de fazer uma história minha, mas ainda está só
no plano das ideias”.
Sobre
os quadrinhos para mulheres ou que falem sobre e para esse público, ela destaca
Marjane Satrapi, com Persepolis, e Alison Bechdel, com Funhome – considerado um
dos melhores livros da década de 2000 –, como quadrinhos autobiográficos que
cumprem bem esse papel.
Julia Bax
“Eu imagino que esperam que eu escreva histórias fofas, e me esforço pra
não me incomodar. Eu desenho coisas fofas e também coisas estranhas, depende do
que dá vontade. Acho perfeitamente possível uma mulher desenhar ou escrever
para um público masculino. Acontece pouco, mas acontece.”
Além de ter quadrinhos pela Boom Studios, Devil's Due, Marvel Comics e
ser ilustradora da Folha de São Paulo e de grandes editoras, ela é professora
na Quanta Academia de Artes e lançará agora em fevereiro, na França, o
quadrinho Pink Daikiri. “Foi um projeto que desenvolvi em parceria
com dois escritores franceses, Laurent Habart e Melanie Thery, e com minha
amiga e ilustradora Amanda Grazini. O livro está pronto e o lançamento vai
acontecer durante o festival de Angouleme, dia 1º de fevereiro”. Em dois
volumes, a obra conta a história de Alixia e Clémence, duas grandes amigas que
moram no mesmo apartamento e cujas vidas mudarão após alguns encontros e
desencontros noturnos.
Julia acredita que sucesso e reconhecimento só são possíveis através de muito trabalho, aperfeiçoamento do seu traço e criatividade para encarar a competitividade. “A gente faz a omelete com os ovos que tem. Todo o tempo que você para pra culpar o mundo é tempo que você poderia estar investindo em ficar bom. Assuma as suas 'desvantagens' e viva do melhor jeito possível”.





